A oração faz Deus mudar de Idéia?

Porque eu, o Senhor, não mudo. Malaquias 3.6a

Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, à uma, se acendem. Oséias 11.8b

No texto de Malaquias a pessoa e o propósito de Deus nos são apresentados como imutáveis. Mesmo que alguns pequem, o propósito de Deus não se frustra. Israel tem parte nesse propósito, embora mereça a destruição. Eleita pela graça, Israel é preservada pela graça (Romanos 11.5,15).
Em Oséias temos alguns termos do cotidiano em vigor “Meu coração” fala da aflição da escolha de Deus. Enquanto Ele enfrenta a grave decisão, Seus pensamentos e sentimentos “agitam-se” dentro dEle. Deus está comovido. Contudo, mais do que isso, Ele revela que “meu sentimento de compaixão” é um desejo de confortar e consolar. O coração do Senhor vem se excedendo cada vez mais em afeto. A expressão “se acendem” pode ser ilustrada com a descrição dos sentimentos afetuosos de José ao ver seu irmão Benjamim em Gênesis 43.30: “E José apressou-se, porque as suas entranhas comoveram-se por causa do seu irmão, e procurou onde chorar; e entrou na câmara, e chorou ali”. O conflito no texto de Oséias termina com o veredicto do v.9, cuja primeira palavra é Não, ou seja, o veredicto é negativo. Não que o coração de Deus tenha mudado em relação ao pecado de Israel, mas Ele opta por não executar a Sua ira, e ao invés disso derramar a Sua misericórdia. Não é do nosso feitio, querer um pouco de cada coisa: um Deus confiável com quem possamos contar e, mesmo assim, um Deus atencioso que possamos influenciar?
Orígenes teólogo e prolixo escritor cristão que viveu entre 185 — 253 d.C. disse: “Primeiro, se Deus sabe com antecedência o que virá acontecer e se isso deve acontecer, a oração é inútil. Segundo, se tudo acontece de acordo com a vontade divina e se o que Deus quer está fixado e nada do que Ele quer será mudado, então a oração é inútil”. Interpretado equivocadamente a passagem de Mateus 6.8b “poderia” contribuir para este pensamento. “porque Deus, o vosso Pai sabe o de que tendes necessidade antes que lho peçais”. Neste ínterim muitos questionamentos nos vêem a mente: Para que serve a oração em um mundo tão predestinado? A onisciência divina é um desestímulo à oração? Por que orar se Deus já sabe? Como conciliar inúmeras passagens das Sagradas Escrituras que aparentemente parecem se contrastarem?
Algumas considerações – 01. Duas importantes figuras de linguagem (antropomorfismo e antropopatismo) que são atribuições e características humanas “dadas” a Deus para que possamos compreender (devido a nossa limitação) o que de outra maneira não compreenderíamos; 02. A trindade, pois o Pai, o filho e o Espírito Santo mantêm uma espécie de conversação íntima, mostrando que Deus aprecia discussões e conselhos; 03. Um Deus amarrado pelas qualidades imutáveis do amor e da misericórdia deve perdoar um pecador que ora arrependido. Tudo isso por causa das Suas qualidades eternas; 04. Nós seres humanos estamos confinados em um universo de espaço e tempo que começou em algum momento temporal, mas Deus não está.
Então como a atemporalidade de Deus afeta a oração? Concluo com o célebre pensamento externado por C.S.Lewis que diz: “O evento com certeza já foi decidido, no sentido de que já o foi (antes de todos os mundos). Entretanto, uma das coisas levadas em consideração ao decidi-lo e, portanto, o que realmente levou ao seu acontecimento pode ser justamente a oração que estamos fazendo agora”.
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