MINHA FILHA MORREU MORTE CRUEL



Caro Pastor Caio Fábio.

Já bati em várias portas pedindo socorro - não posso dizer que as portas estavam fechadas ou se fecharam para mim. Posso dizer que sinto que parece que Deus me abandonou ou se tornou meu algoz.

Explico-me: no dia 05/01/2004, Deus levou minha única filha - Ana Carolina, de uma forma trágica e cruel. Não tenho sua fé e nem sua crença, apesar de ter feito uso muito dela, para tentar sobreviver.

Há anos que o conheço, através da televisão, claro; e gostava e muito de ouvi-lo. Por causa dessa tragédia, fui orientada por uma amiga, que me informou sobre o ocorrido com seu filho Lukas (minha filha também tinha 22 anos), e me deu o endereço do seu site, que muito me ajudou, pois encontrei semelhanças entre seu filho e minha filha, inclusive as últimas palavras, e postura de ambos. Rezo também pelo Lukas.

Minha amiga se chama Leni Queiroz Frossard, aqui de Fortaleza. Ela disse-me conhecê-lo bem, que o pai dela era pastor e seu amigo pessoal: Pastor João Queiroz.

Na verdade o Sr. é completamente coerente com sua crença, sua vida e sua palavra. Isso me faz sentir menor, por que o Sr. tem a conformação, e eu o DESESPERO!

Tanto quanto eu, o Sr. amava seu filho, mas enxerga diferente a morte.

Acredito em Deus, apesar de não entendê-lo. Mas quem sou eu??? Por que tanta dor???

Li seu site de ponta a ponta, da hora que acessei, à tarde...entrei pela madrugada, amanheceu...e eu aqui no micro. Chorei muito, com toda a história do seu filho. Lí o que todos escreveram sobre ele. A visão mais bela, porém, é a do Sr. Mas senti também sua dor.

Não tomarei mais seu tempo, tenho mais um filho e um marido amigo e companheiro que também sofreu a mesma perda. Nós três somos só fragmentos. A saudade e a dor me consomem, não tenho vontade de mais nada, a não ser de morrer.

Porém, sei que tanto meu marido e filho, que ficaram, precisam de mim.

Preciso de ajuda, a Leni faz o possível, fala muito do evangelho; sou católica de formação.

Diariamente entro no seu site, também no café com graça e no portaldoensino/caiofabio.

Ajude-me.

Um abraço, e por favor me responda, e me ajude.

Obrigada.

Marise



 


Resposta:


Minha querida amiga Marise: Que Aquele que é a ressurreição e a vida vivifique o seu ser!


Sim, conheço a Leni, o Carlinhos, o Gidel, e a família toda. E fui amigo do amado João Queiroz, um dos homens que mais respeitei neste Brasil.

Minha irmã, de fato, não conheço nenhuma consolação ou artifício psicológico que possam vencer a dor da perda de um filho. Pensar que exista tal coisa seria como crer que um esquema da mente pudesse ser mais real que a vida de um filho. E se isto fosse possível, duas coisas estariam implicadas: ou o filho não teria sido suficientemente amado, ou você mergulharia num processo de negação do REAL, e que a conduziria para uma condição de FANTASIA horrível, pois logo você se tornaria psicologicamente enferma.

Portanto, a única coisa que tenho a dizer a você é aquela que conheço como bem para mim mesmo, e esta, minha querida, não é um processo pessoal de auto-engano ou de evasão da realidade.

Meu filho, Lukas, morreu. E até que eu mesmo “parta daqui” não mais o verei!

Esta conclusão dói mais que a dor, mas é o único caminho para vermo-nos livres dela como algoz.

O que faz toda a diferença é olhar tudo com amor e fé. Se penso em mim, me desespero, pois, aqui neste mundo, jamais o verei, e isto é pura-dor e desespero. Mas se mudo minha visão—e para um pai ou mãe tal mudança não é difícil, especialmente se se ama os filhos—e penso que ele está melhor, e infinitamente mais pleno e feliz, então, meu próprio amor por ele—e pelo bem dele—me faz sentir consolação.

A dor de pais enlutados cresce na medida em que nós sentimos pena de nós mesmos, isto por termos sido privados do convívio com quem amávamos mais que todos na terra—exceto aqueles que ainda estão conosco, e que são tão “únicos” quanto aquele que se foi.

Assim, quando privilegio minha dor de pai enlutado, mergulho em angustias indizíveis. Mas se olho para o Lukas, sou consolado pelo bem que ele recebeu, e pela paz na qual mergulhou para sempre.

Na realidade as duas dimensões estão presentes sempre, e é a existência de ambas o que nos faz provar a “doce dor”, que é a prevalência do bem de meu filho sobre minha auto-vitimização como pai enlutado pela sua partida. Ambas as realidades, porém, na melhor das hipóteses, sempre estão presentes na alma.

No dia do funeral do Lukas um amigo que havia perdido um filho com a mesma idade, me disse que sofria todos os dias quando via meninas lindas passando...e ele imaginava o que o filho estava perdendo.

Ouvi o que ele disse e pensei que de fato meu amigo estava apenas sentido de duas, uma coisa, ou ambas: a dor pelo que o filho não viveu o “suficiente”, e, ou, suas próprias dores de pai, e que desejava se realizar no filho, e que já não está presente para cumprir os sonhos do pai.

Assim, tanto maior será a sua dor quanto mais pena de você mesma, como mãe enlutada, você tiver.

Meu consolo vem do fato de que meu amor por meu filho quer o melhor para ele, e, nesse sentido, posso lhe dizer que ele não poderia estar melhor!

Na realidade, todavia, nós não queremos radicalmente nenhum bem para os nossos filhos no qual nós não estejamos participando. É a aflição daquele meu amigo no dia do funeral do Lukas, quando ele me disse que sofria porque o filho dele não estava mais aqui...enquanto ainda havia tantas coisas para serem vividas e experimentadas. E assim dizendo, ele confessava apenas o seu próprio horizonte, e revelava sua frustração de não ver a si mesmo realizado, outra vez, na vida de alguém que carregava a ele mesmo...ou deveria ter carregado...se vivo estivesse.

Dizendo tudo isto, quero apenas lhe falar que se você ama a sua filha mais que a você mesma, então se regozije com o sucesso dela, visto que ela já é uma vencedora, e já herdou o que você ainda luta para alcançar.

Minha convicção é que ninguém vai antes da hora... E quando vai, trágica nunca é partida para quem se foi...mas apenas para os que assistem a partida...e que muitas vezes se apresenta com uma cara cruel para quem fica.

João, o Batista, foi para o Paraíso. Mas os que o amavam assistiram a crueldade de que aquele homem sem igual entre os nascidos de mulher tivesse sido cruelmente morto, a fim de satisfazer a caprichos tão banais dos agentes humanos que o executaram. João, todavia, não se sentiu assim, pois não assistiu a banalização de sua morte no espetáculo que fizeram de sua morte no Banquete do Rei Herodes.

No entanto, minha querida, nenhuma dessas minhas palavras lhe terá qualquer significado se você não se apoderar delas pela fé, visto que é somente mediante a fé em Jesus, o Cristo da Ressurreição—e para Quem todos vivem—, é que se pode receber o benefício de saber que Nele a morte deixou de ser o mal, pois também Nele o “justo é levado antes que venha o mal, e entra na paz”.

Agradeça a Deus por todos os males dos quais sua filha foi poupada, e você começara a ver a gratidão vencer a visão do absurdo.

Estarei orando por você e sua família. Além disso, peço que você leia não apenas as coisas que neste site falam da morte física de meu filho Lukas, mas também as demais coisas, e que falam da vida em Cristo que todos nós temos para viver...aqui...e na eternidade.

Nele, que venceu a primeira morte (a do corpo) e a segunda morte (a do espírito) por todos nós,

Caio


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