Evangelho e cidadania - Parte 01



O Brasil enfrenta uma das piores crises de sua história. Uma crise tal que os futuros historiadores terão dificuldades de explicar como foi possível este país construir uma catástrofe destas dimensões ao chegar no final do século XX.

  • Estamos desarticulados socialmente. Os sintomas desta desarticulação se mostram na miséria que se perpetua nos subúrbios dos grandes centros urbanos, na deseducação das crianças que são forçadas a estudar em escolas públicas em ruínas; no esvaziamento do campo e na explosão urbana. Nossa desarticulação social se revela mais exuberante na perda do sentimento de nacionalidade: vive-se uma descrença em relação ao futuro. Somos o país em que políticos ainda se elegem promovendo laqueadura de trompas e distribuindo dentaduras. Observa-se a lenta perda do poder aquisitivo da classe média e nenhuma melhoria para a maioria pobre. Vive-se uma desigualdade regional. O sul próspero e o norte e nordeste com índices africanos. Convivemos com o paradoxo de sermos um dos mais ricos países do mundo em terras e ainda assim sermos um dos mais pobres em nutrição; termos uma enorme quantidade de escolas de medicina e estarmos classificados de acordo com Organização Mundial de Saúde quanto a saúde pública em centésimo vigésimo quinto lugar. Segundo dados preliminares do Ministério do Bem Estar Social, haveria no Brasil, dezenas de milhares de adolescentes prostitutas. Muitas delas acabam engravidando reproduzindo o ciclo da miséria. Outras, engrossam as sombrias estatísticas de aborto e mortalidade materna.
  • Dois em cada dez brasileiros vão dormir com fome.
  • Trinta e dois milhões de indigentes, pessoas que não conseguem comprar sequer uma cesta básica.
  • 365 mil crianças abaixo de 5 anos morrem por ano no Brasil vítimas de desnutrição. É mais que 3 estádios do Morumbi.

O Brasil é um país com uma economia doente, sucateada com uma recessão brutal que mantém os índices de inflação baixos; cartelizada; dependente do protecionismo e subsídio do estado, refém dos grandes bancos, escrava à especulação do capital estrangeiro. O estado está falido, o sistema médico e previdenciário dilapidados. O sistema fiscal desmoralizado, perverso, incoerente. O salário mínimo, um dos mais baixos do mundo. O brasileiro é obrigado a conviver com as mais altas taxas de juros do planeta. Por conta disto, as estradas brasileiras são esburacadas, impedindo o fluxo da riqueza para os grandes portos, o trânsito nas grandes capitais é caótico, o transporte público bagunçado. As cadeias públicas super lotadas, transformaram-se em antros de criminalidade. As polícias mal pagas e mal equipadas são temidas pelos cidadãos e escarnecidas pelos bandidos. O estado não tem recursos para cumprir com suas obrigações previstas na Constituição.

Ecologicamente o Brasil é um desastre. Os rios e florestas destruídos pela exploração irresponsável de seus recursos naturais. Desequilibramos nosso ecossistema quando transformamos algumas de nossas lindas cataratas em imensos lagos artificiais. Poluímos nossas praias pela especulação imobiliária. Continuamos a devastar nossa selva para suprir o guloso mercado madeireiro do primeiro mundo. O resultado patético vê-se – e cheira-se – por todas parte: nossos rios são esgotos abertos, alguns de nossos prados se parecem com cenários lunares. Algumas de nossas montanhas, corroídas pela erosão, são retratos surrealistas de nossa miséria.

O Brasil é o país da degradação ética. Vive-se aqui a generalização do oportunismo político. Há conivência com a irresponsabilidade. Como é grande nossa tolerância com a corrupção – grande ou pequena! A fraude é vista como fato normal. Os interesses corporativos prevalecem sobre os sociais. Aceitamos, sem perdermos o sono, a coexistência gritante da ostentação com os mais dramáticos níveis de miséria. A injustiça social no Brasil é uma das mais alarmante do mundo, sem que haja consternação das elites e das emergentes. Dinheiro que deveria ser destinado a merenda escolar de crianças é desviado para gordas contas na Suíça. Promessas eleitoreiras se repetem de tempo em tempo, enquanto nossas cidades estão entulhando-se de desempregados crônicos – os chamados excluídos. Parece que o deboche diante da tragédia está passando a ser parte de nossa cultura. O conformismo, a falta de espírito público tanto da classe política da esquerda como da direita são características de nossa enfermidade ética. Somente aqui a vergonhosa lei do Gerson nos faz rir e não corar de vergonha.

Por mais que o nosso presidente diga que não, somos uma vergonha, no cenário internacional. Lá fora nos conhecem como o país da violência generalizada, da corrupção, da devastação da Amazônia, do assassinato de crianças e de índios. Somos vistos como o país do sexo promíscuo do carnaval. Muitos europeus lembram-se do Brasil como exportador de travestis.

Aqui neste espaço, nos concerne refletir sobre quais os posicionamentos do evangelho na difícil tarefa de equipar os brasileiros como atores sociais. Qual o papel da igreja evangélica brasileira? Ela é povoada de cidadãos da Cidade de Deus? A igreja produz cidadãos também para o aqui e agora?

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