Evangelho e cidadania - Parte 03

Eis porque devemos observar o comportamento de Cristo diante do impasse que lhe apresentaram:

1. O conceito cristão de cidadania dessacraliza os processos políticos.


Ele pergunta, de quem é a efígie na moeda. A resposta obvia é que era de César. Portanto, não há uma ótica transcendente na leitura daquele regime. O regime de César não é visto como agente do mal e nem como agente do bem; é visto como uma manifestação dos processos humanos de condução da história.

Para cristo, os sonhos teocráticos estão esvaziados. Ele edificará um reino que não guerreará pelos mesmos espaços geográficos que Roma, seu reino não usa a nomenclatura do poder de César, não aparecerá um novo partido dentro da confusa geo-política palestina do primeiro século.

O evangelho não contempla no socialismo o sonho de concretização do reino. Sequer consegue ver o capitalismo que faz do dinheiro o seu deus, a possibilidade de encarnar a utopia do novo céu e da nova terra.

Isso força o cristianismo a interpretar sua realidade histórica à luz da realidade e não do ideal. Quando se indaga a Cristo se deve pagar impostos a Roma, está embutida na pergunta uma inquietação: Um povo deve subjugar outro povo. Uma nação poderosa deve extorquir impostos de outra nação pobre? Não. O ideal não é que isso aconteça, mas o cristianismo não trabalha com pressupostos do ideal e sim do que é. O ideal é que não se gastasse bilhões na indústria das armas, o ideal é que o sistema financeiro não premiasse a especulação e sim a produção, o ideal é que o sistema não se alicerçasse sobre a ganância e sim sobre a solidariedade.

Foi devido a isso que a escravatura não é duramente combatida nas páginas do Novo Testamento. Na realidade em que foi escrito, a escravatura era amplamente difundida. Os autores mergulhados na realidade histórica que viveram sem percepção nítida de como aquela situação pudesse ser revertida não tentam desmoronar o sistema da escravatura, mas lutam para humaniza-lo.

No exercício da sua cidadania o cristão reconhece sua realidade mas não se encaramuja pela distância entre o que é e o que desejamos que seja. O ideal é que não houvesse meninos morando nas ruas, chacinados por hordas de justiceiros. O ideal é que não haja traficantes vendendo crack para os miseráveis que já vivem no inferno. Entre este ideal e o que vemos quotidianamente há um abismo enorme. O que fazer. O evangelho desafia os cristãos a lutar para que eles sejam cuidados, que as estruturas que perpetuam esse estado de coisas sejam derrubadas e que se engatilhem processos que prevenirão outros a caírem nesse caldeirão de desgraça.

Foi interessante a postura do Ministro da Saúde dos Governos do Jimmy Carter e do George Bush. Ele, evangélico militante, iniciou uma campanha pela distribuição de preservativos por todos os Estados Unidos. Confrontado pela Maioria Moral, se não estava legitimando a promiscuidade no país, ele respondeu: O ideal é que as pessoas vivam uma vida monogâmica, mas antes que esse ideal se concretize há milhares de pessoas se contaminando com o vírus HIV. Sou ministro da saúde, não lido com o ideal, tenho que lidar com a dolorosa realidade, portanto, vamos ensinar as pessoas a usar a camisinha.

O ideal é que não haja abortos. Entretanto, milhares de mulheres estão recorrendo a clínicas de aborto imundas. Muitas morrem por infecção. O que fazer? Creio que o conceito de cidadania deve incorporar programas alternativos de adoção, creches antes que as apedrejemos.

2. O exercício da cidadania cristã trabalha dentro dos contornos sociais, sem contudo legitimá-los.

O simples fato de pagar o tributo não significa que o regime opressor de Roma está legitimado por Cristo. Cristo não admite que suas posturas sejam exploradas por razões políticas, como também ensinou aos seus discípulos a nunca se valeram das estruturas do poder para alavancar o projeto do reino.

Francis Schaeffer é que cunhou a expressão co-beligerância. Fazem-se parcerias sem contudo legitimar.

Quando percebo que a igreja católica levantou uma bandeira digna, como sua luta contra a exploração sexual de menores, posso me aliar com ela naquela luta, sem que necessariamente esteja legitimando outros posicionamentos dela como sua mariolatria, o poder papal, etc.

Quando percebo que os sem terra, estão com reivindicações sólidas sobre a reforma agrária e sobre a injustiça social no campo o evangelho deve ratificar o esforço deles – Há muitos crentes entre os sem-terra – sem contudo, estar legitimando a invasão de prédios públicos ou estar solidário a pressupostos socialistas.

Quando o presidente da República desenvolve um projeto de cidadania, um esforço de alfabetizar os evangélicos devem se posicionar a favor, sem que com isso estejam dizendo que aprovam os métodos que foram usados para que se ganhassem os votos pela re-eleição.


“Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador e a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha cidade e defende melhor do que nunca as ais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e, às vezes, os leva a desistir da gesta heróica.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lágrimas de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhe impôs e impõem quotidianamente, do que fizeram e, sobretudo, do que não fizeram. E sim que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo. Sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsando a atividade da cidade futura que estamos a construir. Vivo, sou militante. Por isso, odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.”

Antônio Gramsci – 11.02.1917.

3. O exercício da cidadania é encarado no cristianismo, não como uma atividade da redenção mas da criação.

A função de governar a terra e de administrar foi outorgada no Gênesis antes da queda. O cristianismo, portanto, não necessita de homens redimidos para que o bem seja promovido.

Está fora o conceito de que o Brasil será melhor quando tivermos o maior número de evangélicos no poder.

Não, o Brasil estará melhor quando tivermos o maior número de bons políticos exercendo, da mesma maneira que a aviação brasileira estará melhor quando tivermos melhores pilotos pilotando nossas aeronaves, da mesma maneira que o nosso programa de desenvolvimento da física nuclear estará melhor quando tivermos o maior número de bons físicos à frente dos nossos projetos energéticos.

4. O exercício da cidadania evangélica é ao mesmo tempo uma expressão de amor como expressão de justiça.

O âmago do evangelho é a busca da justiça em amor. E da proclamação do amor a partir

O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra. Provérbios 21.21.

O exemplo do Bom Samaritano. O fez por um sentimento de amor, talvez não passasse no teste do politicamente correto. Não houve contestação do sistema, da insegurança. Mas como expressão do seu profundo amor, a justiça foi exaltada.

Esse é o mistério da encarnação. Cristo ao mesmo tempo dá o que é de Deus e de César. O transcendente e o imanente encarnam-se. A igreja participa no palco social e constrói um castelo transcendental. Age no imanente como justiça, porque foi visitada pelo transcendente com amor.

Por isso é que historicamente ela tanto tem um

Desmond Tutu na África do Sul que celebra um culto a Deus orando para que seja desmantelado o sistema do Aparthaid como sai pelas ruas em passeata pedindo que o regime iníquo caia por terra.

Um Martin Luther King Jr, que prega o sermão em Atlanta e faz o discurso em Washington.

Um Wilberforce que pastoreia uma igreja e ao mesmo tempo é membro do Parlamento Britânico que joga por terra o regime escravagista.

Você tem comunidades evangélicas no morro pregando o evangelho e promovendo cursos de alfabetização. Missionários que dão aula de bíblia e de cuidados de higiene.

Soli Deo Gloria

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