Fazer o Bem Sem Olhar a Quem


Fazer o Bem Sem Olhar a Quem

Fazer o bem sem olhar a quem”. Este é um ditado popular muito antigo. Interessante é que há não poucas expressões neste mesmo sentido em um livro sapiencial, a saber: a bíblia. Salomão ao escrever provérbios disse: “Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e Ele o recompensará regiamente” (Provérbios 19.17) – [Deus considera todo o bem, ajuda e cooperação prestada aos pobres, como uma oferta (presente) entregue a ele pessoalmente (Mt 25.40; Lc 12.33; Pv 14.21,31). A KJ de 1611 traduz este versículo assim: He that hath pity vpon the poore, lendeth vnto the LORD, and that which he hath giuen, will he pay him againe. (Bíblia Edição King James)]. Tiago diz: “Lembrem-se também de que, saber o que deve ser feito (o bem) e não fazer, é pecado” (Tiago 4.17).

Poderíamos citar ainda diversos trechos ou palavras de Jesus nos evangelhos concernentes a este tema, todavia não querendo prolongar-me citarei apenas três diálogos de Jesus: A história do jovem rico (Mateus 19.16-22; Marcos 10.17-22 e Lucas 18.18-23), a parábola do bom samaritano (Lucas 10.25-37), e o encontro com a mulher samaritana (João 4.1-42).

Pois bem, antes de me adentrar no universo dos diálogos de Cristo quero abrir o que me motivou a escrever sobre isso. Estamos sem dúvida alguma naqueles períodos incomuns dos anos após anos. Sim, isso mesmo! – Afinal Copa do Mundo só se realiza de quatro em quatro anos. É um momento mágico, único e sublime, pois até quem não gosta de futebol para um pouco de trabalhar, estudar, namorar, comer, e qualquer outra atividade/ação que esteja realizando para ver sua seleção/país de “coração”.

Neste ínterim temos o vazamento de petróleo no Golfo do México, aproximadamente nada mais nada menos que 9,5 milhões de litros de petróleo por dia sendo despejados no mar. Mas, não é momento de falar nisso, afinal estamos em Copa do Mundo. Nunca antes na história deste país (EUA) se deu tanta audiência com jogos da Copa, os filhos do tio SAM passaram em primeiro lugar no grupo dos seus “colonizadores” (É muita presunção minha dizer que os EUA foram colônia britânica, não é?). E aí como se isso já não fosse suficiente somos “surpreendidos” (digo assim, pois acredito que era algo “previsível” no sentido da má administração pública ao que tange a infra-estrutura dos municípios e regiões atingidas, será que ninguém considerou a possibilidade de que o rio poderia transbordar e atingir em cheio as áreas afetadas?) com um “tsunami” em cidades Alagoanas e Pernambucanas. E é exatamente neste ponto que reside à elaboração deste rascunho.

Sem demagogia ou qualquer apologia faço minhas as palavras do Lula: “Tem gente que tira proveito da miséria”. Lembro-me do que aconteceu algum tempo atrás na região Sul do país. Milhares de pessoas ficaram desabrigadas por atos de irresponsabilidades dos administradores públicos. Tempos atrás morreram mais pessoas nas guerras do tráfico entre bandidos e policiais no Rio de Janeiro do que na guerra do Iraque. Isto é algo que se tornou “comum” (ao menos socialmente falando, pois a mim me leva para dimensão de dor e compaixão profunda), e é uma nota triste. Misérias, desgraças, mazelas, ruindades, fortuitos, homicídios, enchentes, devastações e muitas coisas lastimáveis aconteceram nos anos de outrora, todavia se agravaram no dia que se chama hoje.

Ontem tive a ousadia de assistir a abertura do jornal nacional. E na apresentação das principais notícias que seriam transmitidas em rede nacional observei atentamente o quanto somos bombardeados por manchetes polêmicas e chocantes, quer sejam de alegria ou tristeza. Um exemplo: “Milhares de nordestinos sofrem com as enchentes em sua região”, logo em seguida: “A seleção brasileira já esta pronta para o jogão da sexta contra a seleção de Portugal”. E vai neste ritmo frenético de coisa “boa” e coisa “ruim”, e daí sabe o que é interessante gente: Depois não sabemos ô por que tantos procuram um consultório psiquiátrico ou no mínimo sofrem com algum tipo de problema/ “doença” emocional.

Como se tudo isso já não bastasse começo a ler em sites, blogs, revistas, jornais e a assistir nos mais variados programas de TV ou rádio uma série de críticas a insensibilidade humana pelo fato de que as pessoas estão interagindo com tudo o que acontece na Copa e não dá a mínima para aqueles que sofrem no nordeste. Gente, sou jovem é bem verdade, sou nordestino, paraibano, pessoense, amo a minha terra, o meu povo e a maioria dos nossos costumes, mas confesso que detesto a “ética” e “moralismo” (não acredito em falso moralismo, o que há é a moral que vai de encontro com a graça que só vem da parte de Deus revelada a nós na pessoa de Jesus) de alguns quer estes sejam irmãos na fé (que é diferente de religião) ou não. Como um grande pensador já disse: “Não há nada que o diabo goste mais que ser o padrão de ética e moralidade de um povo e de uma nação”. Infelizmente é com pesar no coração, mas nós adoramos isso. Idolatramos pessoas de “caráter ilibado”, os seres exemplares que parecem perfeitos, e o mais engraçado é que nós mesmos os constituímos e os construímos e depois somos os primeiros a derrubá-los, destroná-los e destruí-los (como disse Rubem Alves em O que é religião?), afinal o mesmo povo (eu, você e os demais) que gritou Hosana algum tempo depois ficou sem voz de tanto dizer: “crucifica-o”!

Então temos o encontro de Jesus com um jovem rico (nada contra ricos, mas tenho a impressão de que este jovem era filho de crente, era de classe média - no caso dele média alta ou alta alta - que se considerava salvo pela “fé” religiosa dos pais, e que por desencargo de consciência ou culpabilidade de coração estava tentando barganhar algo com Cristo pelo viés das cifras (dinheiro), todavia ele não se saiu bem) que dizia fazer qualquer coisa para caminhar com Jesus, pois em outras palavras é este o significado de: “Bom Mestre! O que devo fazer para herdar a vida eterna?”. O jovem estava dizendo: “O que me falta se já faço bem isto, e isto, e aquilo outro? – Jesus que não era um neurótico e débil mental aos caprichos sádicos humanos, cheio de compaixão olhou bem dentro dos olhos e da alma daquele rapaz e disse: “Te falta algo mais importante. Vai, vende tudo o que tens, entrega-o e receberás um tesouro no céu; então, vem e segue-me!”“. [Jesus não está interessado em que o homem se torne pobre, mas, sim, que humildemente se lembre de que a ordenança mais importante é amar a Deus sobre todas as coisas. Exatamente o primeiro mandamento da Lei (Dt 6.4,5). O jovem tinha a idéia de um tipo de obediência exterior (Fp 3.6), normalmente ensinada nas sinagogas aos meninos, a partir dos 13 anos, idade em que passavam a assumir a responsabilidade de cumprir os mandamentos da Lei (Bíblia Edição King James)]. O fim todos nós já sabemos, o jovem abatido de ser e de espírito foi embora, pois amava mais a si (seu ego e status social) e conseqüentemente a sua riqueza que Aquele que é Senhor do ouro e da prata, dos céus e da terra.

A seguir vem uma das histórias que mais amo. A parábola do Bom Samaritano. Esta é uma história de riqueza sem fins. Se além da morte e ressurreição de Cristo o único registro de Sua fala e vida fosse à parábola do bom samaritano eu já seria um homem muito feliz e grato a Deus. Sempre que leio sou humilhado, vejo o quanto sou um miserável, e que ainda assim Deus é misericordioso, cheio de graça e de amor para comigo. O encontro de Jesus com o mestre da lei é um clássico que esta para além de Sócrates, Platão, Aristóteles, Marx, Weber, Durkheim, Freud, Nietzche, Maquiavel, Bertrand Russel, Sartre, Voltaire, e tantos outros que poderíamos citar aqui. O melhor é que não se trata apenas de conhecimento inteligível, dialético e psicodélico. Cristo não foi apenas mais um grande pensador que surgiu, passou pela história, deixou sua marca e depois caiu no esquecimento. Não, Ele vive e reina até hoje! – A história não apenas por fatores sociais é partilhada em antes e depois de Cristo (embora nunca tenha existido o antes de Cristo, pois Ele o é antes mesmo de todas as coisas), pois Ele não trouxe verdades, Ele é a verdade encarnada e revelada a humanidade.

Cristo um jovem de pouco mais de 30 anos estava ensinando a um ancião que era doutor da lei um princípio básico da vida: Fazer o bem sem olhar a quem”. Não quero me prolongar na história então sobre a parábola do bom samaritano você poderá ler outros artigos aqui já postados: (http://basileia-reino.blogspot.com/2010/01/em-busca-de-uma-espiritualidade-biblica.html; http://basileia-reino.blogspot.com/2010/01/lembra-da-parabola-do-bom-samaritano.html; http://basileia-reino.blogspot.com/2010/01/fe-em-jesus-e-uma-religiao.html).

Por último temos o encontro de Jesus com a mulher samaritana. Uma mulher da vida (esta é outra expressão popular). Mulher de vida sofrida quer pelas escolhas amargas e erradas no curso de sua existência, quer pelas maldades que a “vida” lhe pregou por meio de outros. O que esta mulher carecia era de compreensão e aceitação, não de seus muitos pecados, mas de ser compreendida e aceita como ser humano criado a imagem e semelhança de Deus ainda que estivesse distante dEle (leiam: http://basileia-reino.blogspot.com/2009/10/como-compreender-as-pessoas-criaturas.html; http://basileia-reino.blogspot.com/2010/01/e-entre-voce-e-deus.html). E Jesus que conhecia bem o estado espiritual, a condição emocional, a estrutura física, a alma e o ser daquela moça fez exatamente isso, Ele a compreendeu e a aceitou a ponto de suprir a sede (carpem diem e eterna) que jazia aquela moça. Assim como as outras histórias citadas conhecemos o desenrolar e desdobramento final desta. No caso desta moça ela foi reintegrada, aceita novamente pela sociedade (altamente preconceituosa de sua época), e mais do que isso, ela se tornou uma pessoa influente (no sentido mais puro possível) no meio de seu povo.

Agora você deve estar se perguntando: O que tem haver a Copa do Mundo, o Vazamento de Petróleo, as Enchentes do Nordeste com estas três histórias, a saber: do jovem rico, do bom samaritano e da mulher samaritana? – E mais, o que tudo isto tem haver comigo, conosco?

Primeiro: A Copa do Mundo é um evento que acontece pelo menos acerca de 80 anos. E mesmo sabendo dos inúmeros contratos com grandes valores implícitos, com os diversos interesses envolvidos, este é um momento único que só se repete a cada quatro anos, e que também tem por finalidade juntar uma quantidade exorbitante de pessoas com a finalidade de confraternizar. Muita gente que não suporta futebol se rende a este momento, a Copa do Mundo é diferente, não se trata apenas de futebol e dinheiro, questões que estão para além da margem de compreensão humana estão sendo processadas dentro de nós nesta época, e são realizações que fazem bem a alma e ao coração sem ferir a Deus, sem ser blasfêmia ou pecado contra Ele, sem ser insensibilidade para com os que padecem quer no Golfo do México, quer no Nordeste brasileiro e até mesmo lá na África aonde tantos padecem por diversas questões que não temos aqui como mensurá-las. Assista aos jogos, vibre, torça, faça a sua análise crítica, se divirta, chore se sua seleção perder, dê gargalhadas quando ela vencer, mas só não se encha de culpa religiosa, por causa de neuróticos religiosos que fazem transferências e projeções de suas frustrações por não terem relação de liberdade em Cristo com o Pai, comunhão com Espírito Santo, e assim se amontoam de “boas obras/esmolas” por desencargo de consciência e culpa “ética/moral” querendo gerar transtorno na alma e no ser quem já não só entendeu, mas compreendeu a mensagem do evangelho.

Segundo: Não devemos padecer de culpa pecado, e sim facultarmos a responsabilidade social. Somos o sal da terra e a luz do mundo? – Então de maneira sadia e equilibrada, em meio às copas e/ou guerras o que devemos é usar a nossa massa encefálica com reflexão, sobriedade, discrição e compreensão encarnada do/no evangelho em nosso ser e alma, assim como Cristo o fez. Não precisamos que novos vazamentos, novas enchentes, que mais homicídios, estupros, roubos, corrupções e toda “sorte” de maldade aconteça para fazermos o bem. O bem no sentido evangélico dos evangelhos é este: “Fazer o bem sem olhar a quem”.

Terceiro: Todas estas histórias têm haver comigo, contigo e com toda a humanidade, pois são histórias a respeito da humanidade, cujos participantes são os seres humanos. A mensagem do evangelho é de dimensão integral. Como disse Leonardo Boff: “Precisamos transformar a dimensão da transcendência, num estado permanente de consciência e num projeto pessoal cultural”. Cristo ao deparar-se com o jovem rico, com o doutor da lei e com a mulher samaritana, bem como com tantos outros que Ele se encontrou nunca gerou nestes, culpa. Pelo contrário foi o libertador destes. Se por algum motivo tais pessoas não continuaram a caminhada com Ele, ao lado dEle e na dependência dEle é algo que desconhecemos e que não vamos compreender com meras discussões, textos e análises teológicas, estas são verdades eternas que pertencem e competem apenas ao Eterno. Estando com um judeuzinho filho de crentes, ou com um judeuzão ancião e douto, ou até mesmo com uma “prostituta pagã de raça impura e detestável” (não para Ele obviamente, mas para os judeus). O que Ele nos ensina é que a discriminação, a indiferença, a insensibilidade, a opressão e especialmente o infundir de culpa no outro é triste. Sendo no ambiente de trabalho é deplorável, na família é lamentável, na justiça é terrível, e quando se dá no meio da igreja é absolutamente intolerável.

Assim leitores, colegas, amigos, irmãos, familiares, todos nós que constituímos a humanidade, vivamos em paz diante de Deus e das pessoas, com a consciência e com coração tomados pelo princípio do evangelho que reside na pessoa de Jesus. Vivamos não como neuróticos culpados por vibrar com um gol, e depois sentir-se deprimido pelos que sofrem com as problemáticas mundiais como se sozinhos fossemos os culpados por tanta maldade. Vivamos de ser e de alma a mensagem do evangelho que é de amar ao próximo como a si mesmo, lembrando que o próximo não é de religião a, ou denominação b, e que muitas vezes ele pode ser aquele que planejava nos fazer um mal.

Se for ajudar alguém por causa das enchentes, o faça como quem carrega consigo a consciência do evangelho como o nosso Cristo O fez e até hoje e eternamente faz e fará, e jamais como seres cheios de culpa.

Como Cristo, lembremo-nos sempre de “Fazer o bem sem olhar a quem”.

No amor dAquele que nos compreende, nos aceita e nos ama,

João Vicente Ferreira Neto


Postar um comentário