Burocratas do sagrado - Parte IV

Burocratas do sagrado
quarta-feira 9 de maio de 2007

Entrevista com Leonardo Boff: Da hierarquia católica hoje ninguém espera novidades. Que Roma santifique Oscar Romero.
Sergio Ferrari, E-Changer



Ecumênicos na luta pela mudança

Em um mundo tão polarizado e cheio de preconceitos entre culturas e religiões, o ecumenismo se mantém como desafio chave de cristãos e de crentes em geral. Pode Aparecida trazer algo novo a este nível?

No Brasil e na América Latina, em geral, temos gerado um ecumenismo sui generis, que é absolutamente diferente daquele conhecemos oficialmente. Não nos reunimos para discutir doutrinas e diferentes interpretações de dados sobre a fé. Mas temos inaugurado um ecumenismo em missão. estamos todos juntos na luta pelos direitos dos pobres, pela reforma agrária, nas pastorais sociais da terra, habitação, saúde, da mulher marginalizada, das crianças de rua; a favor das escolas e segurança social. E quando fazemos as celebrações para simbolizar nossas conquistas, esquecemos as diferenças e colocamos a palavra de Deus no centro.

UMA NOVA DEMOCRACIA LATINO-AMERICANA

Impossível falar de uma igreja sem falar da sociedade. A América Latina vive hoje um momento particularmente dinâmico de sua história política. Em que medida a Conferência do CELAM poderá associar-se à esta "ressurreição política" que vive o continente? Ou passará desapercebido, ignorará esta realidade ou incluso tentará diferenciar-se?

O fato novo é que vivemos um processo democrático, de centro-esquerda em quase todos os países do continente. Há uma emergência das massas, fruto de uma nova consciência histórica, dentro de uma fase maturação crescente. Para citar alguns exemplos, os 86% de equatorianos, as grandes massas de trabalhadores no Brasil, se cansaram de confiar e de serem enganados pelas elites. E decidiram crer em si mesmos. Votando em Lula e em Ivo Morales, votaram neles mesmos. E isto determina que haja governos com políticas públicas como nunca antes se havia visto, em beneficio das maiorias. No caso de Brasil, são 40 milhões que podem comer três vezes ao dia e que hoje têm luz elétrica em suas casas. E não prevalece o clássico populismo de antigamente quando o líder, geralmente de outra classe, fazia coisas boas para o povo, diretamente, sem a mediação de movimentos populares. Agora, o importante, é que existem centenas de movimentos populares que dialogam com o poder público e pressionam a os governos obrigando-lhes a impulsionar as políticas sociais em seu beneficio.

Vivemos outro tipo de democracia enriquecida com sujeitos históricos, antes ausentes e agora muito ativos. Este fenômeno social, concretamente mas não exclusivo da Bolívia, Equador e Brasil, conta com grande participação da Igreja da Libertação, que há quase 50 anos vem reivindicando tais bandeiras, agora vitoriosas. A Teologia da Libertação ajudou a consolidar esses avanços. Tal como reconhecido pelo presidente Correa, do Equador. São vários os ministros do governo Lula que vem desta raiz. O triunfo dessa teologia é mais claro hoje no interior da política do que nos espaços eclesiástico. Esperamos que Aparecida reconheça tal fato e o reforce.

Tradução: Frineia Rezende

Fonte: http://www.ciranda.net/spip/article1324.html

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