Burocratas do sagrado - Parte I

Burocratas do sagrado
quarta-feira 9 de maio de 2007

Entrevista com Leonardo Boff: Da hierarquia católica hoje ninguém espera novidades. Que Roma santifique Oscar Romero.
Sergio Ferrari, E-Changer

Todos os caminhos não conduzem à Roma, e sim à Aparecida. Pelo menos durante as três últimas semanas de maio, quando os bispos e cardeais católicos latino-americanos se dirigirem a esse santuário para participar da V Conferência do Episcopado Latino-americano e do Caribe (CELAM).

O mais importante conclave da hierarquia católica romana do continente se realizará entre os dias 13 e 31 de maio nesse município do Estado de São Paulo. Lá chegará, também, o Papa Bento XVI - entre 9 e 13 de maio - para participar na mesma cerimônia de abertura da conferência. “ Da igreja católica ninguém espera novidades”, enfatiza com certo ceticismo Leonardo Boff, teólogo e militante brasileiro, um dos padres fundadores da Teologia da Libertação. Vinte e dois anos após a primeira sanção que recebeu do Vaticano e quinze desde que abandonou o exercício sacerdotal para “auto proclamar-se ao estado laico”, Boff analisa a Igreja atual, considerada vazia de vozes proféticas.

Em que etapa de sua existência transitam hoje a Igreja Católica Romana e a Igreja Lationo-americana?

Ambas encontram-se um tanto perdidas, como quase todas as instituições “históricas” em um momento em que praticamente ninguém entende bem até onde vai a humanidade. Têm-se a impressão de que nenhuma autoridade espiritual tem uma palavra verdadeiramente orientadora. Talvez sua Santidade o Dalai Lama ostente certa credibilidade porque reafirma a mensagem universal da necessidade de escutarmos uns aos outros, de amarmo-nos e de buscar a paz sem violência. Da Igreja Católica Romana ninguém espera novidades. Hoje não há vozes “oficiais” que digam a verdade como em épocas em que havia profetas.

Um julgamento bastante categórico...

Sinto que hoje predominam burocratas do sagrado. Que repetem as velhas fórmulas que ninguém adota porque pouco têm a ver com a vida e não geram esperança. Acredito que grande parte da humanidade sente que não se pode seguir este caminho do mundo de hoje. Há muito sangue nos caminhos e não existe consenso a respeito de nenhum ponto essencial.

Nem sequer sobre se queremos realmente salvar a Casa Comum com a qual contamos, a Terra. É uma situação própria de épocas de crises paradigmáticas, crises de um mundo que perdeu grande parte de seu sentido e, ao mesmo tempo, crises de outro mundo que nem acabou de nascer.

Neste sentido, e para ficar no plano terreno, talvez uma das mensagens atuais mais significativas seja a do criador da cidade de Brasília, Oscar Niemeyer. Um marxista convicto, que em dezembro próximo faria cem anos e que manteve um alto sentido de ética. Ele dizia: “o fundamental é reconhecer que a sociedade é injusta e que somente entre irmãos e irmãs que se dão as mãos poderemos viver melhor” . Se o Papa dissesse apenas essas palavras, então valeria a pena sua visita ao Brasil.

Falando ainda da Conferência do CELAM em Aparecida: na lista oficial de 266 personalidades que participarão, membros, convidados, observadores, peritos, etc, a presença feminina não supera a marca de trinta participantes. Que significado tem isto em uma instituição que se define como universal?

A Igreja católica Romana é um dos últimos bastiões do patriarcado e do machismo oficial que existe no planeta. Para o Vaticano, a mulher, eclesiasticamente falando, conta apenas como uma força auxiliar. As mulheres não têm, canônicamente, plena cidadania eclesiástica. Nem sequer podem receber os sete sacramentos, porque ordená-las é vetado.

Se retomarmos São Tomé, que afirmava que o batismo é um sacramento de iniciação - porque contém dentro de si todos os demais - devemos concluir que as mulheres recebem menor e incompleto. Na verdade, elas recebem somente seis sacramentos. O Vaticano, ao limitar a presença das mulheres em seus centros oficiais, é absolutamente coerente com sua teologia.

Resta saber se este tipo de interpretação tem algo haver com a intenção de Jesus de promover uma fraternidade aberta, de irmãos e irmãs sem nenhuma exclusão, e se seguem válidas as palavras de São Paulo ao dizer que “em Cristo não há grego nem bárbaro, nem homem nem mulher, porque todos somos uno em Cristo”.

Tradução: Frineia Rezende

Fonte:

http://www.ciranda.net/spip/article1324.html


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