Ensaios sobre A Política PB 2010

Ensaios sobre A Política na PB 2010

Um pleito exacerbado foi o que se viu nas eleições aqui na Paraíba.

O fato de não haver uma terceira via na política paraibana fez com que a disputa se tornasse ferrenha e acirrada não simplesmente entre dois candidatos, mas entre dois blocos políticos de profunda influência em diversos municípios do estado.

No grupo situacionista representado pela coligação Paraíba Unida que teve como candidato a re-eleição o atual governador José Maranhão. A coligação Paraíba unida que contou com nomes de peso como Wilson Santiago e Vitalzinho (eleito ao senado federal) que por sua vez trouxe consigo nada mais nada menos que seu irmão Veneziano (atual Prefeito de Campina Grande), e ainda sua mãe a senhora Nilda Gondim (eleita a deputada federal), além de vários candidatos ao cargo de deputado (seja estadual ou federal) dentre eles Wellington Roberto (o deputado federal mais votado do atual pleito), além de diversos prefeitos, e lideranças políticas como o senador e ex-prefeito da capital Cícero Lucena, bem como talvez aquele que hipoteticamente seria o seu grande arregimentador de votos que é o atual presidente da república Luís Inácio “Lula” da Silva.

Na oposição representada pela coligação Uma Nova Paraíba o candidato ao governo do estado era o ex-prefeito de João Pessoa o socialista Ricardo Coutinho que teve ao seu lado como candidatos ao senado o ex-governador Cássio Cunha Lima, e o senador Efraim Morais. Ao lado de Ricardo ainda estava o deputado federal Rômulo Gouveia que foi seu vice de chapa.

Contando com um número muito reduzido de apoio de prefeituras em todo o estado, especialmente se comparando ao grupo adversário, principalmente no início do embate político, o candidato socialista ainda teve de aturar durante toda a campanha, e literalmente até o fim, o fadado e agora mais do que nunca sem credibilidade alguma com a população paraibana, o IBOPE.

Desde a primeira pesquisa ainda no mês de maio as principais reportagens traziam: “Ibope sepulta Ricardo Coutinho” (E não sabia o IBOPE que sepultado seria ele antes mesmo do término das eleições). A aliança feita pelas oposições parecia resultar em um enorme colapso e conseqüente fracasso ao “Mago trabalhador” como é chamado pelos pessoenses. Naquele momento instigados pela situação a população pessoense parecia ver com maus olhos a junção de Ricardo com Cássio e Efraim. O fato de o ex-governador ter sido cassado, ser campinense, ter uma mancha histórica de disputa com a ala do PMDB, especialmente com a figura de José Maranhão que havia caminhado junto com Ricardo nos últimos anos dentro da cidade de João Pessoa e recebido dele apoio ao Governo nas eleições de 2006, além de ver Efraim Morais que dia sim, dia não saia nas principais manchetes do país por supostamente estar envolvido com esquemas de corrupção chamado de “fantasmas” parecia naquele ínterim ter tocado nos brios dos eleitores mais fieis de Ricardo, exatamente a população de João Pessoa.

Ricardo foi chamando de: “o novo Hitler, sedento pelo poder, arrogante, intransigente” e tantos outros adjetivos e qualificações foram dados ao socialista. Prova concreta foi à campanha difamatória que se fez contra ele, especialmente no 2º turno, chamando-o de satanista, macumbeiro, etc.

Com o passar do tempo a tão questionada aliança das oposições que em momento algum teve finalidade ideológica (ponto de vista pessoal), e sim meramente pragmática foi se consolidando. Visando não apenas o tempo de guia eleitoral, mas o contingente volumoso de eleitores, além das várias adesões que se deram no 2º turno, dentre elas a já esperada vinda do deputado federal reeleito Luiz Couto do PT, da deputada estadual (que não conseguiu sua reeleição), a surpreendente vinda de Iraê Lucena (PMDB), e do prefeito de Santa Rita Marcos Odilon também do PMDB, além de inúmeros vereadores, prefeitos e deputados que aderiram ao projeto de governo do socialista Ricardo Coutinho.

Questões relevantes que servirão de lição para as próximas eleições:

Dentro do estado temos excelentes institutos, equipes, empresas de publicidade, propaganda e marketing. Isso foi comprovado no 2º turno por ambas as coligações, sendo assim, não se precisa gastar tanto dinheiro para trazer quem não conhece com riqueza e profundidade a nossa terra;

Como disse Maquiavel: “Ninguém vence no mundo político sem fazer aliança”, e acredito que aliança se faz para vencer e também para perder. O tempo mostrou (e só ele mostrará) que aliança certa era a de Ricardo, ao menos no que se desrespeita a vencer a eleição;

Não se pode desprezar um grande adversário. Não se pode chamar de morto quem esta vivo, aliás, não se deve tratar com desdém alguém que consegue reunir três qualidades fundamentais de um grande político conforme os grandes teóricos de política: “carisma, poder e conhecimento”. Não significa superestimar Cássio Cunha Lima, mas os adversários, diga-se de passagem, muito mal assessorados caíram no conto do vigário de acreditarem que o deputado Wellington Roberto teria forças para duelar com o Tucano no interior do estado. O que se viu no pleito deste ano é que Cássio é muito maior que o PSDB estadual, é muito maior que um bloco político, e que quanto mais perseguido e criticado, ele se torna mais influente, mais amado e mais votado; Outro fator importante a ser considerado é que o presidente Lula por mais influente que seja, conseguiu transferir votos apenas para sua candidata a presidência, enquanto aqui no estado Cássio mostrou o quanto é forte ao dar a Serra um grande vitória em Campina Grande, ou seja, presidente pedindo voto nem sempre será sinal de transferência significativa de votos. Já falando de Cássio para um candidato a presidência e ao governo do estado a história é outra.

A ala Maranhista dava como certa a vitória do 1º turno e sucumbiu diante não apenas de um adversário poderoso, mas caiu por sua própria arrogância. Não ir aos debates no 1º turno; Indo aos debates no 2º turno, mas chamando Ricardo de arrogante (que ainda que ele fosse, à imagem deixada foi o inverso, o arrogante parecia não ser Ricardo e sim o “humilde” Maranhão); As piadas e os ditados populares (sem graça e mal contados) em um momento que propostas concretas deveriam ser apresentadas não foram bem vistos pelo povo; Medidas as pressas como a tal “PEC 300”, meramente com fins eleitoreiros (ainda que jogada o tempo todo por parte da mídia, especialmente por um grupo de telecomunicações que sempre esteve ao lado do PMDB da PB) não conseguiu convencer muita gente, pelo contrário, o que se viu foi um mal estar generalizado entre as outras categorias, como os educadores e médicos;

As perdas de um lado, e os ganhos de outro. Ter um vice como Rômulo Gouveia foi uma estratégia política de mestre, pois ao seu lado Ricardo teria não apenas os votos de Cássio, mas de uma ala mais conservadora e religiosa, e de outros campinenses e cidades do interior que admiram o trabalho realizado e prestado por Rômulo. Perder o apoio de Lula e Dilma no 2º turno foi um golpe duro para a coligação Paraíba Unida que teve de recorrer aos vídeos gravados no 1º turno. Ricardo por sua vez trouxe a Paraíba nomes fortes e influentes em todo o país (e não apenas do meio político, mas também artístico) como: Luiza Erundina, Renato Casagrande (PSB – ES), Cid Gomes (PSB – CE), Ciro Gomes, Eduardo Campos (PSB – PE), Romário, Marcelinho Carioca, Chico César, e da presidencial Marina Silva (PV) que obteve quase 20 milhões de votos, obtendo uma expressiva 2º colocação na grande João Pessoa (Cabedelo, Santa Rita, Bayeux), e também em Campina Grande;

Fica de lição também de que a discussão política é ampla. Ela não se restringe ao aborto, as drogas e a religião. Mas há também, saúde, educação, construção civil, turismo, mortalidade infantil, tecnologia, agricultura, e muitos outros assuntos;

Lembrar ainda que enquanto os candidatos a presidência (Dilma e Serra) em seu último guia do 2º turno escolheram apresentar ao país suas famílias, e um pouco de suas histórias de vidas, e trajetórias políticas, assim como o fez o candidato socialista Ricardo Coutinho. O grupo da situação preferiu atacar, criticar, apontar;

O que nos leva a compreender que o feitiço virou contra o feiticeiro. Quem mais evocou algo ruim acabou por dormir muito mal no final da contagem de votos. Quem fincou o pensamento na divisão, no passado, nos entraves, na discórdia, se enforcou com seu próprio laço. Não que Ricardo tenha sido brilhante, não que Cássio e Efraim sejam o padrão de moralidade e ética na política, não se trata de ressaltar “virtudes” nos outros, mas é de entender que quando se faz política apenas enfatizando as debilidades do adversário, aos olhos do povo isso pode ser fatal, pois o que parece ser virtuoso em si parece ser o seu maior mal. Quem não tem o que apresentar passa o tempo todo atacando, mas não se dá conta que ataca a si mesmo.

Como é que vocês acham que ficaram os grupos não cristãos, de religiões afro, os ateus, os artistas responsáveis pelas esculturas, os usuários de algum tipo de droga, inclusive o cigarro comum? Como ficaram os professores, educadores, médicos e funcionários públicos de outras categorias ao ver a tal “PEC 300” ser rapidamente encaminhada à assembléia, aprovada em uma quinta, sancionada em pleno sábado, as vésperas da eleição? (e os respectivos familiares de cada um destes)? Como se sentiram milhares de paraibanos vendo o estado inteiro sendo sujo por milhares de panfletos difamatórios jogados de um helicóptero com adesivos do atual governador, e ainda saber que em uma cidade de apenas 20 mil moradores (tão importante quanto qualquer outra cidade dentro deste estado) não há sequer um hospital público, mas há uma pista para avião em torno de 2 milhões de reais?

Ricardo por sua vez provou mais uma vez que estava certo. Não era ele que queria o poder pelo poder, basta ver a trajetória política dele como na gravura acima. Quem vai subindo degrau a degrau com luta, lágrima e suor, por meio da manifestação e espontaneidade popular, que teve quando não havia outra alternativa romper com quem teve vínculos profundos de origem no mundo político, e chegou aonde chegou, não pode ser tachado o tempo todo de arrogante e intransigente. As escolhas e a trajetória de Ricardo me leva a pensar que no curso de nossa existência há mudanças, seja pelas circunstâncias ou por escolha própria. Sendo assim quem sempre muda e muda o tempo todo é volúvel, frágil, perdido e não sabe aonde quer chegar. Por outro lado quem nunca muda é uma toupeira, é um poste, é intransigente, sabe que não quer chegar a lugar algum, pois não quer sair da mediocridade chamada “zona de conforto”, é por esta e pela outra que digo: às vezes eu mudo.

Estas são pequenas provocações (e entendam aqui não no sentido pejorativo, mas político-filosófico) concernentes as eleições estaduais deste ano. Esperamos que a grande festa da democracia não seja revertida no tapetão, mas seja reconhecida e consolidada no dia 01 de janeiro de 2011.

Como gosto muito de esportes, especialmente futebol, há uma frase que sempre recorro: “Ninguém comemora uma vitória antes do apito final”. O grande erro da coligação Paraíba Unida foi comer o bolo antes dos parabéns, foi ter se ludibriado pensando ter ganho o embate sentado, foi vibrar com uma vitória sem esperar o apito final, e neste caso o juiz foi o povo.

João Vicente Ferreira Neto
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