Breve Tempo...



Exatos 18 anos e 10 dias, mas parece ter sido ainda há pouco...
Eu nunca mais poderia vê-lo, abraçá-lo, tocar na sua barba e dar um beijo na sua face...
Faz tanto e tão pouco tempo ao mesmo tempo em que parece nunca passar...
Lembro-me do seu prazeroso riso...
Lembro-me de tanta coisa da qual jamais me esquecerei...
Lembro-me do primeiro presente de que me tenho consciência...
Lembro-me das tuas loucuras papai...
Lembro-me de pular em tua barriga enorme...
Lembro-me de todos os clubes que íamos, dos rios e cachoeiras enormes...
Lembro-me das canções de Benito Di Paula que tanto gostavas...
Lembro-me do chevette, do passat, da Kombi...
Lembro-me de sofrermos com o gol de Maradona... Como eu chorava em teu colo...
Lembro-me de torcer loucamente pelo Corinthians na final de 90... De como saímos gritando pelo meio de uma cidade que nem conhecíamos...
Lembro-me que você me levou para um bordel e enquanto fazia suas loucuras (penso eu hoje) eu era mimado por um monte de moças...
Lembro-me das boas surras que levei, três ao total e todas elas você estava certíssimo, aquilo me fez um bem tremendo... Me ajudou a ser um homem melhor...
Aprendi com aquilo a nunca mais comer o batom de uma moça pensando que era chocolate, aprendi a não mais brigar na escola e atirar pedras em vidraças, aprendi a não mais desrespeitar os mais velhos... Ou ao menos tenho aprendido...
Lembro-me do açougue, do matadouro, das sandálias, de como eras apto para ganhar dinheiro, confesso que isso não herdei de você...
Lembro-me das muitas viagens para quase todas as cidades do coração do Brasil...
Lembro-me de atravessar a fronteira contigo ao menos uma única vez...
Lembro-me das farras e algazarras que fazias... Não há ninguém que saiba fazer uma festa como você...
Lembro-me dos deliciosos pratos, com exceção a vovó você era insuperável...
Lembro-me das várias casas que moramos, lembro-me de acordar de madrugada com a cozinha e o terraço desabando...
Lembro-me das grades de cerveja, das doses de cachaça, e das saideiras "infinitas"...
Lembro-me da noite perversa no bar... Tu estavas embriagado, fora de si, irreconhecível...
Lembro-me que semeastes tua morte e a colheste...
Lembro-me que resististe por duas vezes até sucumbir na terceira vez...
Lembro-me como me ensinastes a enfrentar um inimigo face a face, olhando dentro dos olhos com serenidade sem precisar levantar a mão, pois pelo penetrar da íris tudo dizias...
Lembro-me da última noite, de como estávamos alegres, era uma noite festiva parecia de fato uma linda despedida da qual jamais estive preparado...
Lembro-me de pedir-me para ir ao bar tomar a maldita saideira... Nossa como aquela maldita saideira me custou...
Lembro-me dos estrondos, dos disparos...
Lembro-me de sair feito um louco do banco de trás do carro aonde dormia...
Lembro-me de ver a 3º bala perfurando tuas costas...
Lembro-me de ver você virando e levando o 4º tiro em cheio no peito e cambaleando em minha direção...
Lembro-me que enquanto a gigantesca poça de sangue se formava estendestes tua mão e me dissestes algo que daria a minha vida para entender...
Lembro-me do quanto me amastes com todas as tuas forças e condições...
...
Mas fiquei tão triste, tão solitário, terrivelmente abandonado quando partiste para não mais voltar...
Há um vazio terrível que parece nunca passar...
Por mais brilhante que fostes, não me ensinastes que serias traído mortalmente pelas costas...
Quatro cápsulas metálicas fez o meu herói desabar diante de meus olhos...
...
Tive de aprender a me tornar homem ainda criança atropelando tanta coisa, tanta gente, inclusive a mim mesmo...
Mas nunca me esquecerei de teu amor...
Nunca me esquecerei que estivemos juntos até o fim...
Enquanto houve esperança lutamos juntos até a morte nos vencer...
Você se foi e eu permaneci... Ou talvez você tenha permanecido e eu é que parti...
Gostaria de reencontrar o elo que nos une...
Aquele a quem juntos protegemos, você na sua grandeza e eu na minha ousadia...
Espero que ele esteja bem, não quero parti sem antes encontrá-lo, pois tenho a sensação que me reencontrarei com um velho amigo irmão com face de pai...
O caçula cresceu... Esta tão distante... Há muito não tenho contato...
Até eu cresci e não me dei conta... O menino se fez homem muito menos que se imaginasse...
Tudo aqui é muito duro como você sempre me falou não com palavras, mas com a própria vida...
Amei-te desde o reencontro... Amei-te todos os dias... Amei-te até o fim... Mas a morte que nos separou jamais te arrancou de dentro de mim...
Te amarei enquanto vida tiver...
A maior dádiva que o Pai de todos nós me deu foi ter vivido ainda que por pouco tempo com o maior privilégio que um filho possa ter... O ter um pai...
Consegui prosseguir graças a Ele...
Perdi a ti papai, mas encontrei o Pai de todos os pais...
E nEle e tão somente nEle repousa o meu coração... Sossega a minha alma...
Se pacifica o meu ser...
Para sempre te amarei...
Sou grato a Deus e não terei como não ser por um dia poder dizer: "Pai"... Meu papai...
Ainda que em um...
Breve tempo...
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