O Mistério da Casa Verde - Parte II



Um pouco de tudo se encontra aqui. Aventuras da infância, suspense e ação, poder e razão, médico e escritor, humor e amor...

A escrita é provocante e provocativa, Scliar assim como Assis desce o Machado sobre a relação médico paciente, mas sobretudo sobre a relação humana (o que é, como se dá, o que deveria ser, como podemos ser). A forma de tratamento, mas, mais que isto, o que permeia o coração e a alma humana.

O casarão abandonado serve apenas a servir de enfeite da bela história. A loucura pela loucura jamais fora o tema central, mas a loucura da indiferença que é o pior estágio do que seja mal a que como seres humanos podemos chegar.

O Antigo Machado é sempre novo seja Machado, seja Assis, e Scliar apenas nos convida a "discutirmos" e refletirmos sobre a nova antiga questão "sobre a autoridade e o poder".

Mais de um século de história que usa uma estrada para apontar um caminho, e um caminho bom. O caminho "de um grupo de adolescentes que, batalhando pelos seus objetivos, descobrem a solidariedade e enriquecem suas vidas".

Frases soltas que me chamaram a atenção:

"Era uma garota - quinze, dezesseis anos. Dois detalhes lhe chamaram imediatamente a atenção. O primeiro: a maneira como estava vestida. Parecia ter saído de um filme sobre o século XIX, com o seu vestido longo, severo. O segundo detalhe era mais importante: a garota era linda. Linda, não, lindíssima. Morena, longos cabelos, alta, corpo perfeito. Deus, gemeu Arturzinho, de onde é que saiu esta maravilha?"

...

"- A Casa Verde...
 - É. A Casa Verde. "Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações vizinhas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias." Logo começaram a chegar os doentes. "Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito." O doutor Bacamarte estudava cada caso. O objetivo dele era, diz Machado, "... estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal".
 - Espere um pouco - interrompeu Arturzinho. - Que história é essa, "remédio universal"? Quer dizer que o doutor Bacamarte queria um remédio que curasse todos os tipos de doenças mentais? Será que o cara não estava exagerando?
 - Estava. Agora: ele acreditava o que fazia. Machado conta que o homem se dedicava mesmo: "... analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências"."

João Vicente Ferreira Neto
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