O Mistério da Casa Verde - Parte III





Um pouco de tudo se encontra aqui. Aventuras da infância, suspense e ação, poder e razão, médico e escritor, humor e amor... 

A relação entre o "doutor" e o "paciente" é interessante. Muitas vezes ficamos a nos perguntar: quem é o "doutor", e quem é o "paciente"?

Afinal a sensibilidade é uma moeda de duas faces, assim como a indiferença, enquanto uma alegra a outra machuca, uma consegue levar brilho aos olhos e colocar riso na face, a outra deixa os olhos baços e o semblante pesado.

Neste embaraço ficamos com uma nostálgica sensação de que tudo se trata de convenções sociais ou determinações de "força maior", o vulgo "Estado". É uma forma de ludibriar a si e ao próximo, ou somente a si, dado ao fato de que se engamos, o fazemos, fazemos a nós e não a outrem?!

Vejam bem a narração da professora aos meninos sobre a argumentação utilizada pelo barbeiro ao alienista (pág.46): "Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica" [...] - Mas na verdade o que o barbeiro queria era outra coisa, vejam a fala da professora: "- O negócio dele era político..."

Certamente temos um pouco de loucura na nossa normalidade, assim como temos algum tipo de normalidade em meio as nossas loucuras, o fato é que o tema da loucura é sugerido, mas apenas com a intenção de ocultar o verdadeiro tema em questão: "interesses econômicos e políticos, em suma, o poder"!

Eis aí esta junção da loucura com o poder, afinal todo poderoso tem muito de louco, e todo louco "tem" muito poder (ao menos em seus devaneios).

Então em um mundo onde a grande maioria é louca e só você parece normal, quem é o verdadeiro louco? Ou em um mundo aonde todos são normais e só você é louco, quem é verdadeiramente normal?

Citações da obra O Mistério da Casa Verde (pág.47): "- Ele disse o seguinte: se o número de loucos era tão grande, o normal era ser maluco. Como explicou na carta que mandou à câmara: "... se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades", ou seja, das faculdades mentais, da mente. Para a Casa Verde só iriam as pessoas "que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais". E o doutor trataria dessas pessoas. O objetivo era fazer com que ficassem perturbadas, para voltar à normalidade, isto é, à maluquice." 

Acredito como Gilles Deleuze: "Escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga". A escrita é uma dádiva libertadora. Scliar fez bom uso das palavras, ou talvez não, nunca se sabe, cada mundo é um universo de sentimentos e interpretações que varia a todo o instante, então como saber?!

Mas assim como se foi Scliar e o próprio Gilles Deleuze que dizia: "São organismos que morrem, não a vida", e isto é fato, pois eles vivem entre nós por meio de seus escritos e ensinamentos, é necessário entre sensibilidade e indiferença ir tocando em frente. Especialmente se você for médico, prefira ser sensível, ainda que muitos não o sejam com você, ou talvez o sejam, vai ver indiferença e insensibilidade sejam a maneira de mostrar afeto e sensibilidade da parte destes. Mas toque em frente, faça a diferença.

Se compreendermos que a profissão médica é uma arte, abraçaremos estas palavras de Deleuze: "A arte é o que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à infâmia, à vergonha", e assim seguiremos a diante, em meio aos desencontros e perdas da vida e na vida. Ou será fácil acordar madrugadas a dentro, deixando pai e mãe, esposo (a) e filhos (as) e ir socorrer a diversas pessoas que dependem muitas vezes de um "plano de saúde" precário, vulgarmente conhecido como SUS em nosso Brasil...?!

Sai dia entra noite, vai noite, chega dia, e os milhares de médicos maltratados não pelos pacientes, mas pelos donos e detentores do poder são desrespeitados dia a dia, afinal foram cerca de quase 10 anos de formação, entre cursos, estágios, sala de aula, hospital, residência e outras formações e capacitações, e reconhecimento algum ou insignificante houve e há por parte dos poderosos, pois a reivindicação médica não tem haver apenas com melhores salários, mas com melhores condições de trabalho, o desejo deles é tratar humanos como humanos, e para isso é necessário que eles o sejam tratados como humanos, mas isso me refiro apenas aos bons médicos, e não aos detentores do poder, não aqueles que desfilam com os jalecos, canudos e CRM como se aquilo o fizesse melhor e mais especial. 

Daí só olhando para dentro. Só tendo aquela convicção pessoal de que é isto que sequer, pois este lema de dizer que médico ganha bem (falo de Brasil) é uma grande piada, e mais, quem foi que disse esta aberração: "Dinheiro é tudo e vale mais que tempo!". As vezes podemos "ter tudo", e o que temos na verdade é o nada.
Gosto do que diz um poeta inglês do século XVIII: "A verdadeira felicidade só é encontrada quando definimos o propósito (prazer) da nossa existência ~ William cowper"... Vejamos um pouco mais do Mistério da Casa Verde: "- Então o alienista conseguiu o que queria? - perguntou André. - Aparentemente sim. Mas então se deu conta de que, na verdade, aquelas pessoas já eram perturbadas antes: "Os cérebros bem organizados que ele acabava de curar eram desequilibrados como os outros". O único que era cem por cento sadio era ele, o alienista. [...] "Conta Machado: "Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo."

É fantástico este elo entre Scliar: "O único que era cem por cento sadio era ele, o alienista. [...]  - e Machado: "Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo." Há inúmeras interpretações, mas me limito a esta citação: "Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são os seus olhos e qual é a sua visão de mundo" (Leonardo Boff). A citação tem haver justamente com o que venho discorrendo - não loucura e poder - Mas, sensibilidade e indiferença, seja para com o próximo ou consigo mesmo, a grande questão é ter a consciência de que se sou insensível com o outro, talvez é porque o seja comigo, apenas não me apercebi disso. Diante do médico não há um paciente, um objeto, um pagamento, mas um ser assim como ele mesmo, o médico. Talvez naquele momento necessitado de uma ajuda específica por parte do médico (enquanto cientista), mas que nem por isso ou por outra razão qualquer precisa se tornar indiferente a sua humanidade. Pois como dizia Charles Chaplin: "Não somos máquinas, e sim meros humanos".

No decorrer da obra algo intrínseco a tudo dito aqui se revela (pág.52 e 53): " - Nesse período, ele não teve contato com ninguém, a não ser com a mulher que tomava conta do lugar, uma portuguesa chamada Ana. Essa moça tinha muita pena do doutor; cuidava dele, alimentava-o, vestia-o. Para ela, o doutor Bacamarte não era alienista... nem doente; era um infeliz, um homem solitário, que precisava ser ajudado. Ele acabou se apaixonando por ela."

Penso que aquele homem "doutor, alienista, médico, humano" fez foi uma viagem para dentro de si, afinal: "Toda obra é uma viagem, um trajeto, mas que só percorre tal ou qual caminho exterior em virtude dos caminhos e trajetórias interiores que a compõem, que constituem sua paisagem ou seu concerto ~ Gilles Deleuze", assim as vezes é necessário se "perder", para que possa se encontrar, mas muitas vezes antes de ir a algum lugar, antes de alçar voo para terras longínquas, antes de olhar para fora como quem sonha, é necessário voltar-se para dentro, para que se possa despertar, é necessário fazer a sua própria viagem existencial, muitas vezes sem ir a lugar algum e ao mesmo tempo indo em diversos lugares. 

O que me faz ser sensível? O que me faz ser indiferente? O me faz ser louco? O que me faz ser sedento ao poder? O que me faz negar tudo isso, quando sei que é verdade ou não, mas ao menos parte disso pode fazer algum sentido? O que me faz fugir do espelho? O que me faz aprisionar o que mora dentro de mim, tentando fugir com o que tem do lado de fora? Será que isto me leva a sensibilidade? Ou talvez a indiferença? Não seria o Mistério da Casa Verde um irmão caçula de O Alienista, assim como Scliar o médico e escritor um "irmão" de Machado mergulhado na compreensão do seu universo interior para que aquele que se vê seja mais humano?

Tudo aqui se trata apenas de uma viagem as angústias de um homem e de sua luta contra a vaidade, assim o que passa do lado de fora é fruto de um processo que começa e se dá do lado de dentro. Pacientes e doutores, alienistas, médicos ou humanos, como vai a viagem interior?!

João Vicente Ferreira Neto
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