"Se o Papa pode renunciar, nós podemos nos divorciar?"



Tem o lado de interpretação religiosa. 

E tem o lado natural, própria da vida (e este é o que acredito). 

Há inúmeras versões concernentes a renúncia do Papa, do tipo: problemas de saúde, idade avançada, escândalos ocorridos dentro da santa sé descobertos pela equipe papal, entre outros. 

Particularmente acredito que ele foi ousado, corajoso e sábio ao tomar tal decisão. 

O Bento XVI sempre teve posicionamentos claros sobre uma diversidade de assuntos (independente de concordarmos), ele ao menos foi honesto, tinha coisa que não acreditava, ou reprovava e falava abertamente, e de algum modo assim foi com a renúncia. 

Sobre o divórcio a "igreja", instituição religiosa, há inúmeras posições: é um sacramento; é uma ordenança; é uma aliança "eterna"; não se pode divorciar; se pode divorciar; se pode divorciar, mas não pode se casar novamente; se pode divorciar, e pode se casar novamente; entre várias outras linhas/correntes teológicas. 

Eu acredito nas palavras que Jesus proferiu a um grupo religioso de seus dias: "Foi feito o homem para o sábado, ou o sábado para o homem", e daí extraio um princípio universal para as demais coisas. Exemplo: Fomos criados/evoluídos (existimos) para comer, beber, trabalhar, ganhar dinheiro, transar, e tantas outras coisas, ou estas coisas existem e estão ao nosso dispor para que possamos usá-las de acordo com a nosso compreensão de mundo, capacidade de reflexão, bem estar próprio sem ser invasivo ou destruidor do espaço do outro?

O sábado serve apenas de ilustração para a vivência de um princípio universal. 

As coisas estão ao nosso dispor para nós usufruirmos delas, elas são subservientes a nossa razão, e não nós a elas. 

Sobre o casamento, a relação matrimonial, ainda, aproveitando o que já disse anteriormente, acredito que duas pessoas devem permanecer juntas enquanto há paz, respeito e amor genuíno e recíproco, pois há muita gente casada no cartório, na "igreja", mas vivem como se estivessem separados. 

A relação de Gabriela e Nacib, em Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado ilustra um pouco isso, mas no geral nosso país ainda é muito conservador, e moralista, então poucos compreendem isso, taxam logo de liberalismo. 

Por fim gosto muito de um axioma de "santo" Agostinho: "Nas coisas essenciais unidade, nas não essenciais liberdade, e em todas as coisas o amor". 

O Bento XVI talvez foi o segundo corajoso na história dos Papas a tomar tal decisão, permanecer (pelas razões que só ele e Deus o sabem), seria uma loucura.

João Vicente Ferreira Neto
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