Eles não viveram as nossas vidas, mas...




Eles não viveram as nossas vidas, mas...


Não!

Eles não viveram as nossas vidas, mas...

Se sentem no direito de falarem sobre o que desconhecem.

Quando decidi partir, só o fiz por ter recebido o apoio dela. Ele sequer se importava com a minha existência.

Ela era do lar, e ele sobrevivia da estrada.

Ela tinha a alma doce, e sua única tristeza era a ausência dele.

Ele mesmo com muitos calos nas mãos, viciado na insônia e alimentado apenas de arroz pelos quilômetros da vida, tinha como sua maior tristeza a solidão.

Sai cedo de casa e longe fui morar, perdi o contato com muitos conhecidos, mas jamais com os poucos amigos.

Cedo sai, e cedo tive que aprender coisas que de outro modo não aprenderia.

Meu pai consumia arroz, eu preferia os doces.

Ele consumia a branca e pura, eu preferia as brejas.

Ah, ela... Ela sempre escolheu os sucos e chás, especialmente os mais tranquilizantes.

Eu comecei me arrastando com quatro patas inserido em culturas, aprendendo seus usos e costumes, sabores e dissabores; 

Em seguida passei a caminhar por conta própria sobre minhas duas hastes submerso e imerso na sociedade, nos seus processos e desdobramentos; 

Na fase seguinte uma caneta foi meu apoio, ou tem sido para considerar o que já vivi, o que sobrevivi, o que eu não era mesmo sendo, o que eu era nada sendo, e de como dentre todas as ações, não há uma que seja tão cansativa como razoar.

Nela eu tinha raízes e asas, nele liberdade e segurança.

Nela se reuniam as miríades dos encantos de Apolo, Bacus e Pomona, nele dominavam as flechas do cupido.

Entre eles existia eu, o miolo, sempre grafitado no teto.

O último suspiro entre eles eu sei, mas não revelarei.

Que pairem sobre vocês todas as dúvidas a respeito do que sei e do que não sei...

Ela do lar, ele no mar, e eu a voar...

Ela cá, ele acolá e eu do lado de lá que nem é cá e nem acolá.

Que graça tem contar um segredo(?), logo não seria mais segredo. Segredo só graça tem por ser segredo.

Ela sabia mais sobre mim do que eu mesmo o sei.

Ele vivia muito mais sobre o êxtase do que eu, e aquela mente aparentemente cauterizada, mesmo surrada e cansada era mais avançada que toda a minha geração.

Eles não se usavam, não se descartavam, um não estava sobre e nem sob o outro, eles não competiam, não se acirravam, eram parceiros, divergiam convergindo, eles construíam.

Ele de tanto cheirar, pouco sentia; ela de tanto sentir, pouco via; e eu de tanto falar, pouco ouvia.

Dentro de uma grande coração há sempre uma oração que pulsa e gera uma ação.

O que não é nó pode ser laço, que no compasso sendo aço com outro aço se afia.

Foi passamdo fome, frio e vergonha, repressão e opressão, mas as escondidas, recenendo carícias, afagos e ternura, que me tornei apto a não confundir desejo, tesão e amor.

Os outros fizeram a cova e me lançaram brusca e violentamente ao chão me cobrindo com barro quando a flor murchou.

Ele observando a distância apenas água jogou e da terra cuidou, mal sabiam os outros que eu era semente de carvalho oriundo da cebola brava com a cebola de calango, e me adaptava tanto ao quente quanto ao frio, tanto em tempo chuvoso quanto seco, que eu sabia a ternura e amargor das lágrimas, e a secura e sustentação da sequidão.

Ódio e depois indiferença se apresentaram mais voraz e ambiciosa que a solidão. Solidão quando solitude se torna solidária e solicitude.

Eu a tinha como planta de Jericó, mas na verdade ela era uma mimosa pudica que de súbito foi acometida por fungos, vírus e bactérias que fatalmente a vitimou.

Ela já não era mais, pedradas e machadadas levei, exceto dele que não me abandonou, sua mão estendeu e com afetuoso gesto me abraçou, sua única dúvida era não entender como eu, ser tão viajado não gostava de arroz.

Eu continuei sendo miolo para eles, e mesmo sendo único, outro tipo de miolo eles tiveram que eu não soubera, e que quando vim a saber, não havia o que fazer, me restando apenas continuar a viver.

Os outros não viveram as nossas vidas, eles não viveram as nossas vidas, mas se sentem no direito de dizer o que devemos ou não fazer, o que podemos ou não fazer, o que queremos ou não fazer!

Ela e ele me ensinaram a ter raízes e fazer através delas asas, a ser livre me sentindo seguro, a ter segurança voando, e voando saber a direção...

Eles não viveram as nossas vidas, e suas opiniões e impressões nada importam...

Ela e ele me ensinaram a viver...

Ambos me ensinam que muitas vezes se faz necessário morrer para nascer, e viver...! não viveram as nossas vidas, mas...


João Vicente Ferreira Neto
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