A NECESSIDADE DE ENCONTRO

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A NECESSIDADE DE ENCONTRO



"Vendo Jesus sua mãe (Maria) e junto a ela o discípulo amado (João), disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa."

O que Jesus diz aqui se pensarmos nos nossos dias chega a ser um absurdo - João ainda novinho ao lado de Maria - e o que foi dito por Jesus, no meio cristão atual não seria repetido jamais. Seria entendido como uma manifestação de desagregamento familiar, de dissolvência da nuclearidade consanguínea da família.

Jesus foi o filho primogênito, e não filho único de Maria e José, José que aceitou o fato da gravidez na subjetividade do coração, pois a revelação veio em sonho, ele não teve a chance de ter um encontro com o anjo, à Maria o anjo apareceu, a José foi em sonho, e ele acordou decidido em tomar a mulher como esposa, pensando nos nossos dias é difícil encontrar um homem assim.

Maria e José tiveram outros filhos, Judas, Tiago, Simão todos irmãos de Jesus, mas no caso aqui pendurado na cruz Jesus diz o que diz a Maria e João estabelecendo a familiaridade profunda, congênita, não no sangue, mas na cruz, ele relativiza a sanguíneadade dos parentescos e absolutiza a convergência da família que nasce pelos laços da cruz.

E o que isso tem a ver conosco?

Tem a ver com a nossa necessidade de encontro.

Quem de nós não tem necessidade de encontro?

Assim quando Jesus diz o que diz da cruz a Maria e a João, ele não está designificando os nossos encontros consanguíneos ou qualquer outro encontro humano, mas o que ele está sobretudo afirmando é que ali ao pé da cruz é o lugar onde os verdadeiros encontros, as verdadeiras conjugalidades, as verdadeiras amizades, as verdadeiras ternuras podem acontecer mais que em qualquer outro lugar se nós entendermos o significado da cruz.

Não acontece com frequência no meio religioso "igreja", pois na maioria das vezes o meio religioso "igreja" não entendeu até hoje o significado da cruz, por isso que quem habita o meio religioso "igreja" chama as pessoas que frequentam os mesmos ambientes religiosos de irmãos, mas os amigos eles arranjam longe do meio religioso.

Se entendessem o significado da cruz, entenderiam que onde há cruz há graça, e onde há graça existe inclusão, misericórdia, perdão, aceitação.

Na graça de Deus não se pede nunca que alguém se transforme para ser incluído, na graça de Deus o indivíduo é sempre primeiro incluído para poder ter alguma chance de ser transformado.

Então quando da cruz ele fala de encontro, o que ele está dizendo é que os nossos encontros que são necessidades básicas e essenciais do nosso ser não são negados por Deus nem na cruz. 

Ele fala de uma mãe carente de um filho e um filho carente de um mãe. Em outras palavras ele está dizendo que não existe nem de longe banalidade na necessidade de afeto do coração. 

Afeto do coração, fome de afeto, de carinho, de inclusão, de pertencimento, de vínculo são realidades tão sérias que Jesus elege o tema para proceder da sua boca na hora das horas da história humana. 

E por qual razão?

Porque um quantidade enorme de descaminhos da gente acontecem por causa da pulsão da nossa necessidade de afeto e de encontro.

Nosso desejo de encontro é tão grande e as nossas carências são tão profundas que nossa vida vai se dissolvendo, vai se enrolando, se emaranhando, se desconstruindo a medida que a gente anda, e a gente fica sempre olhando para o ser que está tendo esta experiência de desconstrução como louco, um insensato, um cretino, um safado, ou ele, que é o que está vivendo a experiência se julgando diuturnamente como um ser sem alma, sem caráter, sem coisa alguma, e às vezes o que habita no fundo dele, da alma dele é apenas a necessidade de um encontro verdadeiro.

De modo que antes de moralizar qualquer coisa, o que Jesus faz é psicologizar a vida. Ele olha para as necessidades da alma. Quando observamos as coisas que o comportamento produz nós estamos lidando com a casca da árvore, nós não estamos lidando com o âmago, nem com a seiva do ser e da vida que habita nas camadas muito mais profundas da nossa interioridade.

Quando ele diz : "mulher eis aí teu filho, e eis aí a tua mãe", é a afirmação de Jesus acerca da importância da necessidade de encontro, e mais do que isso, de que os encontros que podem trazer significação profunda que transcendem a consanguinidade são aqueles que acontecem a partir da consciência que temos da cruz em nós e da graça de Deus em nós.

Ele compreende a nossa necessidade de encontro...

João Vicente Ferreira Neto





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