Há 25 anos...




Há 25 anos...

Era primavera, a melhor das estações...

Era outubro, talvez o melhor de todos os meses do ano, mês onde muita gente querida comemora a passagem das quatro estações...

O ano era 1992, ironia ou não todos os anos que terminam em 2 até aqui só posso dizer que foram ótimos...

Durante muito tempo papai foi "meu herói, meu bandido", hoje ele não é nem herói, nem bandido.

João Balaio era seu apelido, ele era gordo, ou fofo!

A "explicação científica" do meu amor passional pelo futebol e pelo Corinthians é fácil. O ano de 1990 é a marcar registrada disso. Do choro inconsolável em seu colo em um dia chuvoso no bairro Recanto do Sol na cidade de Anápolis o Brasil era eliminado pela Argentina de Maradona da Copa do Mundo na Itália, todavia naquele mesmo ano em uma cidade do interior de Goiás, outra no caso, ouvíamos pelo rádio o gol de Tupãzinho que dava ao Corinthians o seu primeiro troféu nacional, e não podia ser melhor, no Morumbi e sobre o São Paulo, hehehehehe. Corríamos como um bando de loucos por uma praça qualquer comemorando um título que escutávamos pelo rádio mal sintonizado do carro...

Papai viajava muito a trabalho, ele era uma mistura de vendedor, despachante e representante comercial de sandálias e da DeMillus. Ela "amava" mesmo era vender as peças íntimas femininas, a cabra safado! Todas as vezes que ele voltava de viagem trazia um presente, geralmente era um carro ou caminhão, mas não daqueles de plásticos feitos em lojas, mas aqueles feitos de lata de óleo, com pedaço de pneu e fios, uma coisa bem engenhosa, feita a mão e que eu gostava pra caramba. Amarrava a cordinha e saia puxando.

Meu pai era de maio, para aqueles que gostam de horóscopo ele era taurino, não sei a lua, o ascendente e todas essas coisas, mas provavelmente ele tinha um pouco de cada signo, especialmente as loucuras destes signos.

Em tempos onde muita gente que nunca foi a um museu se choca com o que não entende, meu pai me levou nos altos dos meus 7 anos a um bordel, vulgo cabaré. Muitas mulheres que em momento algum abusaram de mim. Pelo contrário, me deram carinho, brincaram comigo, enquanto meu pai brincava a brincadeira dos adultos, todo o meu carinho, respeito e consideração a cada uma daquelas mulheres, profissionais do sexo, vulgarmente: putas!

Tenho poucas memórias afetivas da minha infância é verdade, não sei bem a razão disso, estou tentando descobrir, tenho poucas, algumas boas, outras nem tento, mas já há tanta maldade no mundo, e até naquele meu mundo de criança já havia tanta maldade que eu tento fazer um esforço para lembrar do que foi bom e do que valeu a pena.

Meu pai tinha um grande amigo. O tio Zé, carinhosamente Umba, Umbinha. Meu tio era bem diferente de papai, moderado, ouvia mais, falava menos, e tinha um olhar daqueles galãs de cinema sabe. Ele costumava me dizer ainda criança que as mulheres não resistiram o bigode e a barriga, meu tio era um homem muito bom e o grande amigo do meu pai, fiel até a morte!

No país onde mais se mata no mundo, mais de 60 mil homicídios por ano, já em 1992 eu também fui uma vítima indireta disso. Um homem de bem matou fria e covardemente meu pai. Um homem de bem que almoçou alguns vezes na mesma mesa com meu pai, fosse na mesa de um bar ou na mesa da nossa casa, seu nome Luís Carlos, um nome bonito, nome inclusive que está na composição do nome do meu irmão caçula, e é também o nome de um colega a quem quero muito bem.

Talvez durante um tempo tive raiva do cara que matou meu pai. Possivelmente nutri um desejo de vingança que foi sendo esquecido com o tempo. Vingança não leva a lugar algum, alimentar o ódio só faz mal a quem o alimenta, é melhor seguir o caminho da paz, como alguém sabiamente escreveu: "é melhor ser vítima de uma injustiça, a cometer uma injustiça". Não sei se é a expressão seria melhor, mas compreendo o que ela quis dizer.

Não sei a razão pela qual o Luís assassinou papai, já ouvi muitas versões, fato é que nenhuma versão justifica um ato tão brutal, tão violento. Mas até o Luís de algum modo é vítima desta sociedade do medo banhada de violência que nós vivemos. Não sei o que aconteceu com ele, tudo o que sei é que se tornou um foragido, há quem diga que ele foi pro Pará, mas esta parte já não me cabe saber, e nem tenho interesse, o que desejo é que ele encontre paz de espírito, e esteja onde estiver, se vivo de preferência, ele tem meu perdão!

Fato é que serei sempre contra a pena de morte, também sou contra a revogação da lei do desarmamento, em um país de gente tão mal educada, ignorante e violenta que se considera de bem, mas sequer consegue jogar uma lata de cerveja ou refrigerante no lixo, imagine uma pessoa dessa com uma arma na mão?! Melhor não imaginar...

Hoje dedico a minha breve relação com papai, tão passageira quanto uma estação do ano, uma canção do Tim.

Em novembro farei 34 anos, e 25 anos já se foram que ele se foi, fato é que já vivi bem mais sem ele do que com ele.

Tenho poucas memórias afetivas da minha infância, e poucas do meu pai, mas hoje escolhi lembrar um pouco daquelas que foram boas...

"Gostava Tanto de Você
Tim Maia

Não sei por que você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus não pude dar

Você marcou na minha vida
Viveu, morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão que em minha porta bate

E eu
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você

Eu corro, fujo desta sombra
Em sonho, vejo este passado
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato

Não quero ver pra não lembrar
Pensei até em me mudar
Lugar qualquer que não exista
O pensamento em você

E eu
Gostava tanto de você
Gostava tanto de você"

João Vicente Ferreira Neto
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